Notas da 5a sessão do curso: Alinhamento e Aliança com Personagens (Plantinga e Smith)
Ficção Seriada
(GEC 128)
Aula no 5 (13/05/2019)
Estruturas Actanciais e Resposta Estética: padrões de engajamento e
alinhamento com personagens em seriados televisivos (C. Plantinga e M.Smith)
1. No desenvolvimento dos pontos da última sessão do
curso, abordamos um primeiro aspecto da composição do universo de agentes nas
fábulas de formatos seriados definição televisiva, partindo daquilo que as
vertentes de semiótica textual designavam como sendo sua “estrutura actancial”
– isto é, o conjunto dos personagens constituintes de uma história, naquilo em
que sua funcionalidade implica determinados papéis dinamizadores da trama (como
os de protagonista, coadjuvante e antagonista).
Na avaliação que
ali fazíamos, contudo, o problema não consistia apenas na identificação e
descrição dessa “lógica actancial”, mas sobretudo a de correlacioná-la com o
fenômeno da evolução dramática da intriga ficcional: sendo nosso propósito mais
associado ao delineamento da “funcionalidade narrativa” da composição desses
papéis associados aos agentes, sua identificação a partir dos preceitos
semióticos visava auxiliar uma melhor descrição do funcionamento dessas
estruturas, em contextos específicos de sua evolução narrativa, em momentos,
arcos, episódios e temporadas inteiras dos produtos seriados
Na medida em que,
como vimos antes, tais estruturas são responsáveis pela função de situar o
universo das ações, a partir da identificação (expressa ou sugerida) das
disposições, inclinações, planificações e até mesmo das performances da conduta
dos agentes, nosso propósito era o de especificar o aspecto em que todas estas
variáveis auxiliam na formação de
certos quadros evolutivos da trama narrativa – a partir das polaridades
funcionais que conferem um interesse dramático mais ou menos específico aos
papéis actanciais.
Era portanto no
âmbito das “estruturas actanciais” que identificamos então as funções que
exercitam a evolução dos acontecimentos, na medida em que estão menos relativas
comprometidos com a pura vetorialidade causal do sentido narrativo (aquele que
se identifica com a sucessão das ações e de sua lógica interna), mas sim com
algo que nos auxilia a enquadrar os agentes em torno dos quadros oposicionais
de uma história (por exemplo, no tocante aos valores que se encontram em disputa
e na função que cada uma dessas posições comunica sobre a função especifica de
cada agente).
Ao explorarmos
determinados tipos de episódios de seriados de ficção televisiva, ensaiamos
alguns dos tipos de situações nas quais a estrutura narrativa era mobilizada
com determinadas inflexões de mudança dramática, em função mesmo daquilo que
ocorria no âmbito das estruturas actanciais e dos papéis atribuídos a agentes
da trama: dentre tantos casos explorados, vimos como a composição de
determinadas ações (tais como diálogos ou disjunções de probabilidades na ordem
dos acontecimentos da narrativa) propiciava aos agentes das histórias
pronunciar com maior força e na extensão devida de uma evolução temporal
(normalmente na unidade mínima de episódios e arcos narrativos) o interesse
dramático apropriado àquilo que fazem ou pretendem realizar nos universos da
fábula desses produtos.
Com isso,
examinamos a importância funcional que assume a introdução de um personagem e
de contextos específicos de ações (mesmo no caso de um simples diálogo), de
modo a constituir o desenho dos espaços actanciais e dos papéis de agentes da
história, no contexto mais extenso do desenvolvimento dramático de uma obra
narrativa – especialmente na longa duração dos dramas seriados de televisão. Na
chave das teorias semióticas do texto narrativo, estas questões são
especificadas em termos de estruturas actanciais, mas podemos desdobrá-las
efetivamente em operadores analíticos que auxiliem a pensar aquilo que ocorre
nas junturas mais específicas da engenharia poética do drama seriado televisivo
– como exemplificado nessa breve passagem de Complex TV, de Jason Mittell (em um capítulo sobre “personagens”):
“Espectadores
de seriados televisivos se engajam com um sistema dinâmico e contínuo e não com
um texto fixo como a maior parte dos filmes. Identificamos personagens não
apenas dentro de um conjunto fixo, mas também de episódio a episódio, através
de intervalos de extenso extensões variadas no tempo da historia e da tela. Uma
estratégia comum para manter esses reconhecimentos é a menção aos nomes de
personagens, relações e identidades através dos diálogos, auxiliando a
orientação da audiência (...). Mas em um nível mais abstrato, como reconhecemos
um personagem que tenha mudado da primeira temporada até a última? É ele ou ela
a mesma pessoa ficcional ou terá mudado num nível mais intrínseco?” (MITTELL,
2015: 132,133)
Ainda que o autor
se equivoque em caracterizar o problema da serialização televisiva, no tocante
a sua diferença de natureza (conforme contrastemos o filme e os formatos
televisivos), assim como na suposição de que seja a longa duração que contribua
para o processo de complexificação narrativa dos produtos ficcionais
televisivos, ainda assim ele consegue pelo menos arranhar a superfície do
fenômeno que estamos buscando nuclear, através da exploração sobre a
funcionalidade dramática dos agentes de uma história.
Ainda assim,
contudo, se exploramos esta questão na sessão anterior, partindo da relação
entre as estruturas actanciais e a “lógica das ações” que preside a evolução da
trama, em sua escansão temporal (fazendo com que os agentes mesmos sejam
tomados pelas disjunções de probabilidade que presidem o desenvolvimento
narrativo), precisamos agora nos deslocar para o aspecto em que esta
funcionalidade requisita o papel presumido ou implícito dos horizontes da
recepção – e os capitais cognitivos, sensoriais e avaliativos que os compõem
necessariamente (ao menos no contexto de sua composição poética).
É assim chegado o
momento de considerar como é que a funcionalidade dos papéis actanciais se
efetiva, na relação prospectiva que faz com os horizonte presumidos de nossa
adesão espectatorial aos universos da fábula: precisamos então avaliar a
relação entre “estruturas actanciais” e os horizontes éticos e cognitivos de
nosso alinhamento com aquilo que acontece na organização textualmente intrigada
das histórias – este sendo o tema que desenvolveremos, a partir de agora.
2. Nos textos que nos servem de base para essa
exploração, podemos começar com o registro mais “singelo” (e, no limite,
“simplório”) com o qual esse problema se apresenta para nós: o texto de Fabio
Feltrin nos oferece uma formulação que concebe (quase no plano de um “sintoma”)
uma espécie de senso comum acadêmico
dos processos através dos quais a organização de universos ficcionais (e
especialmente considerado o lugar dos personagens nessa composição) é capaz de
nos engajar em tais contextos de compreensão, pelo modo como mobiliza, nos
processos da leitura continuada, determinadas ordens conceituais prévias de
nossas relação regrada como assim chamado “mundo real”.
Trabalhando
a partir do suposto “paradoxo” que definiria o fenômeno de nossa identificação
com personagens desprezíveis ou imorais, o autor se interroga sobre as
condições nas quais isso é possível – especialmente partindo daquilo que
indicam certas leituras acerca da composição dramática desse tipo de
personagens em universos fílmicos e de ficção televisiva: centrando-se
especialmente no caso de Tony, o chefe da família mafiosa em The Sopranos, Feltrin nos restitui aos
argumentos do filósofo e teórico do cinema Nöel Carroll – especialmente naquilo
que parece caracterizar nossa aliança moral com personagens desse tipo (que
cometem assassinatos como parte de seu cotidiano de trabalho) como se
decorresse de um processo de identificação aparentemente exclusivo de nossa
relação com universos imaginários.
Ao
seguir em uma tal linha de argumentação, Feltrin concede espaço a um tipo de
análise que caracteriza uma certa vertente dos estudos fílmicos de uma certa
época (com vigência apenas residual nos dias que correm), com considerável
influência de teorias psicanalíticas: centradas no problema de como os aparatos
fílmicos (tais como o da sala de cinema) mobilizam uma tal situação de absorção
cognitiva que nos separa das condições ambientais do mundo real, o que resulta
dessa experiência, especialmente no contexto do cinema de ficção, é a liberação
de uma atitude fortemente hedonística e cuja estrutura pragmática é fortemente
dirigida por preceitos exclusivos da ordem ficcional e imaginária.
Em boa
parte das idéias de Carroll absorvidas por Feltrin predomina essa valorização
de nossos processos identitários com antagonistas de universos ficcionais que
presumem uma determinada liberação de constrições morais e comportamentais do
mundo real do espectador – por seu turno, associadas ao fato de que os
processos de identificação ocorrem, por assim dizer, na “segurança” de uma
relação com aquilo que é socialmente desprezível ou proibido, mas ocorrendo em
universo actancial completamente separado das sanções devidas num mundo real
(portanto, como parte das “regras do drama”). Assim sendo, nossa identificação
se justifica socialmente porque é experimentada dentro de limites próprios a um
mundo imaginário da ficção.
“Temos uma pró-atitude para com Tony |Soprano| porque ele realiza,
embora ficcionalmente, o tipo de descontrole, de indiferença, que queremos para
nós mesmos – a capacidade de realizar nossos desejos enrustido, reprimidos,
presos e sem punição (...). O autor |Carroll| explica que, independentemente de
quantas similaridades há (sic) entre o personagem que angaria a simpatia e os
membros da audiência, ninguém é literalmente idêntico a ele e nem – e isso
seja, talvez, o mais importante – ninguém se conduz a ser estritamente idêntico
a ele.” (FELTRIN, 2010: 263)
Implicadas nessas
formulações há um considerável conjunto de supostos que, pode-se adivinhar,
caracterizam as antípodas de tudo aquilo que vimos argumentando em várias
etapas anteriores de nosso percurso sobre os universos seriados de ficção
televisiva: no tocante ao estatuto rigorosamente “ficcional” de sua composição,
a argumentação de Feltrin infringe o preceito de uma não-estrita separação
entre os domínios do “fictício” e do “real” – já que a possibilidade de que as
construções narrativas façam algum sentido dependem rigorosamente do fato de
que se reportem a determinados aspectos, ao menos, do funcionamento de
universos de referência dos “mundos atuais”. Se este ponto vale para uma
explanação sobre a “ontologia” dos mundos possíveis, ele deveria igualmente
valer para os modos de nosso engajamento emocional e, em última instância,
moral nesses universos.
Não é, portanto,
em razão do quão reprimidas são nossos quadros morais de base para as emoções
que podemos experimentar, que podemos nos liberar para sentir “coisas boas”
acerca de “vilões”: a explicação surrupiada de uma psicanálise quase folk das teorias fílmicas (e que
inclusive fazem pouquíssima justiça às idéias originárias de Carroll, cuja
complexidade não poderíamos declinar aqui e agora) redunda numa tal
generalidade do processo em que deixamos nossa moralidade do lado de fora da sala de cinema que acaba por igualar, sob o
manto da normatividade ética, coisas bem diferentes entre si (naquilo que
concerne ao modo como o cinema de ficção trabalhou com tais suspensões da
moralidade).
Podemos nos
perguntar se os mecanismos de tal promoção
hedonística da liberação moral se aplicariam do mesmo modo, conforme estivéssemos
tratando, por exemplo, da criminalidade e da sexualidade: são dois espaços de
uma experiência estética “para alem do bem e do mal” nas quais a reticência
quanto a normatividade ética se exercitam de modo consideravelmente distinto –
poderíamos dizer, exigindo menos mediações da moralidade em um caso do que no
outro.
Formulemos esta
questão de outra maneira, e partir do titulo mesmo do artigo de Feltrin: se não
concebemos que seja rigorosamente adeqüado falarmos em “vilões simpáticos” (a
não ser como oximoro), supor que a identidade com estes personagens implique em
algum paradoxo, este é precisamente o do processo pelo qual a vilania se torna
moralmente justificável – ou seja, das condições nas quais um personagem
reprovável pode ser aceito como fazendo algo de, em última instancia, correto e
virtuoso. Ora, como isso é possível? Certamente, não porque identificamos na
criminalidade (que é o caso de Tony Soprano e, por que não, de seu modelo
primordial em Michael Corleone) algo que no fundo desejaríamos poder abraçar,
mas porque o contraste com outros personagens e com o universo ficcional
circundante – incluindo suas próprias regras – assim o justifica.
Que reconheçamos
a moralidade do criminoso tem algo a ver com o fato de que reconhecemos (não
como “regra do drama”, mas como aspecto da lógica de nosso próprio mundo
histórico) que circunstâncias e ambientes sociais podem estar na base da vileza
como traço de caráter e de conduta justificável: assim sendo, a composição
ficcional do mundo da família Soprano pode espelhar aspectos e preceitos de um
mundo social estruturado sobre a regra de uma suposta “nobilitude” da
criminalidade – e que dependerá do modo como reconhecermos na composição
actancial desse universo a carga protagonística de alguns desses personagens,
como é o caso de Tony Soprano.
Assim sendo, a
lógica que torna possível que simpatizemos com vilões nada tem a ver com uma
inerente “simpatia” desses agentes, tampouco com um capacidade intrínseca a
mundos ficcionais de nos fazer suspender a moralidade em que operamos no mundo
social: para além ou aquém dessas condições, a racionalidade do mundo ficcional
(e dos universos actanciais que o compõem, como seus personagens) é pautado
pelas circunstâncias de seu entorno que conferem a certos atos sua própria
racionalidade e justificação. Supor que tais regras são exclusivas da ficção
implica esquecer que (ao menos no caso da representação dramática da
criminalidade) a identificação com vilões possivelmente decorre dos mesmos
quadros morais do mundo histórico e social da referência dos espectadores.
3. Um aspecto importante da dominância do discurso da
psicanálise nas teorias do cinema tem decerto algo a ver com o modo como o
conceito de “identificação” foi empregado nessas teorias: na medida em que o
fenômeno de absorção perceptiva do espetáculo fílmico foi consideravelmente
apartado dos princípios da composição especifica de sua gramática audiovisual,
resultou disto que as considerações sobre a importância dos operadores
narrativos acabou evacuada das discussões sobre o fenômeno da identificação no
cinema narrativo clássico (a não ser, mais uma vez, na chave propriamente
psicanalítica do conceito).
O
texto do filósofo e teórico do cinema Berys Gaut é particularmente instrutivo
deste processo, assim como da necessidade de se trazer o conceito da
“identificação” para dentro da dimensão de construção narrativa das obras
fílmicas: nesse sentido, seu primeiro esforço é o de associar o processo em
questão com a função específica do personagem das histórias, como elemento
através do qual o engajamento emocional pode ser compreendido em sua
efetividade; ao abordar o personagem como centro irradiador da identificação
que experimentamos com certos segmentos do “espaço actancial” de uma história,
Gaut descentraliza momentaneamente a força com a qual teorias psicanalíticas
procuram fixar esse processo, a partir das forças pulsionais da subjetividade
espectatorial.
Ainda
que a identificação se caracterize como artigo de uma certa “psicologia
transacional”, como capacidade de “colocar-se no lugar de outrem”, do ponto de
vista das economias cognitivas e afetivas que a ficção coloca em funcionamento,
este fenômeno de identificação deve ser pensado a partir das condições nas
quais o discurso ficcional constrói as características que favorecem nossos
vetores de engajamento. Tudo isto decerto envolve uma dimensão fortemente ativa
de nossas capacidades imaginativas, mas é necessário estipular o modo como tais
faculdades são postas em jogo, na relação apropriada com aquilo que se passa em
nossa absorção a um mundo ficcional e a seus agentes específicos.
No
caso especial da ficção audiovisual no cinema e na televisão, este problema
envolve aspectos não pouco importantes de diferenciação: quando consideramos
nossa capacidade imaginária de simpatizarmos com personagens moralmente
duvidosos, devemos nos interrogar sobre como é que os elementos da gramática
audiovisual constroem efetivamente as condições desse nosso engajamento
emocional com personagens ficcionais. Uma forma “canônica” de estipular esta
construção é, por exemplo, a de fazer com que o universo ficcional da fábula
seja construído a partir da perspectiva de um agente: se tal papel actancial de
protagonista é atribuído a um criminoso, por exemplo, trata-se apenas de fazer
com que as ações sejam narradas a partir de sua própria perspectiva. De certo
modo, é aquilo que encontramos em formatos seriados como este:
Aparte
os aspectos da composição estritamente visual da seqüência, podemos reconhecer
que sua estruturação narrativa recorre a elementos de reforço sobre o caráter
fortemente “perspectivo” de tudo aquilo que acompanhamos como elementos do
mundo da fábula de Dexter Morgan: de saída, é sua própria voz que conduz e
pontua os eventos da trama inicial do piloto, conferindo-os da lógica
apropriada para a justificação de tudo aquilo que ele mesmo, de saída,
reconhece que pode ser tomado como moralmente reprovável (quando, por exemplo,
nos diz que não foi ele quem matou seus pais).
Por
outro lado, na decorrência daquilo que sua voz expõe sobre seu próprio mundo, o
papel actancial de Dexter como protagonista é estabelecido a partir dos
recursos a sua infância traumática (que conferem um aspecto de justificação histórica
de sua personalidade), assim como de contextualização de suas ações no presente
(já que suas vitimas são moralmente mais desprezíveis do que ele, o que confere
a seus atos um senso perverso de “justiça”). Nestas condições, nossa
identificação e engajamento emocional com o protagonista, não obstante o
reconhecimento de sua possível imoralidade, decorre do modo como certos
aspectos e contextos de suas ações coincidem com um quadro moral mais ou menos
aceitável.
“Uma vez que compreendamos a identificação como assunto de se imaginar
na situação de um personagem, o assunto pertinente passa a ser quais
aspectos da situação do personagem são aqueles em que alguém se imagina dentro.
Como vimos, poderíamos compreender a situação do personagem em termos das
propriedades que ele possui (...); mas podemos pensar no personagem como
possuindo uma perspectiva afetiva dos eventos (como ele se sente acerca deles),
motivacional (aquilo que ela é levada a fazer a seu respeito), epistêmica (o
que ela acredita sobre eles) e assim por diante. Então, a questão a se
perguntar sobre quando se fala da identificação com um personagem é em que aspectos ela se identifica com o
mesmo? O ato da identificação é aspectual.” (GAUT, 1999: 204,205)
Tudo
isto considerado, contudo, não podemos supor que a contextualização seletiva de
tais aspectos que mobilizam nosso engajamento decorra apenas das operações da
gramática audiovisual através das quais se representam pontos de vista
narrativos: já vimos anteriormente que, especialmente no caso das formas
audiovisuais, há uma complexidade intrínseca na qual a transposição dos
preceitos literários da orientação discursiva das narrativas se exercita; em
outras palavras, não podemos supor que os processos de identificação com
instancias actanciais seja uma mera conseqüência dos modos como compreendemos a
perspectiva “orientada” da narratividade – ou seja, não nos engajamos
emocionalmente nas histórias apenas porque intuímos os pontos de vista de sua
organização (e muito especialmente, isto não ocorre como conseqüência dos
“focos visuais” que a gramática audiovisual específica).
“Uma vez que reconheçamos a existência de uma identificação aspectual,
podemos ver que o reconhecimento dessas complexidades está compreendido na
própria noção de identificação. Como distinguimos diferentes aspectos da
identificação, podemos manter o fato de que, ao estarmos perceptualmente
identificados com um personagem, isto não implica que estejamos afetivamente
identificados com o mesmo – fato de que nos imaginamos vendo a partir de sua
perspectiva não nos requisita imaginar que queiramos aquilo que ela que, ou
imaginemos sentir aquilo que ela sente. Assim sendo, torna-se assunto de
teorização substantiva que investiguemos sob quais condições uma forma de
identificação promove a outra.” (GAUT, 1999: 206)
Neste ponto,
então, necessitamos considerar como é que se constrói nossa aliança, parcial
que possa ser, com um personagem como Lecter: no âmbito das estratégias
narrativas do filme, isto implica decerto o modo de construção através do qual
os recursos da gramática audiovisual são empregados para esta finalidade. Ao
discutir a possibilidade de mobilizar tais estruturas, a partir de determinados
efeitos, Smith estipula dois recursos fundamentais de tida narrativa para
construir certos vetores da informação sobre o mundo da fábula – e que podem
agir conjuntiva ou disjuntivamente, no contexto da efetivação de sua trama: de
um lado, podemos pensar na questão da construção de um ponto de vista através
do qual a história nos é informada, e que nos propicia aquilo que o autor
designa como nosso “alinhamento” com este universo.
Pensemos naquilo
que caracteriza o modo como a fábula de Dexter
nos é oferecida, a partir da voz em off
de seu protagonista, revezando-se com o regime visual da exposição do piloto do
seriado: em certa medida, o recurso do alinhamento neste caso nos oferece uma
lógica do mundo ficcional no qual a narração se implica, através do qual nosso engajamento
afetivo com o protagonista decorrerá precisamente desta lógica em que seu
discurso arranja as circunstâncias que nos permitem justificar a moralidade
específica de sua conduta. Neste caso, nossa adesão ou “aliança” com sua
perversidade decorrem conjuntivamente do modo como o ponto de vista narrativo
condicionou nosso alinhamento com esse universo de ações - por ele derivar
precisamente de uma personagem que tem esta sorte de inclinação (e, claro está,
por justificá-la a nós pelo fato de que suas vitimas são provavelmente ainda
mais perversas do que ele).
“Mais
basicamente, a estrutura moral de um filme reside nos termos pelos quais
personagens são apresentados como ‘bons’ ou ‘maus’, mas há possibilidades mais
sutis – um filme pode reter julgamento óbvios, permitindo apenas padrões
tentativos de aliança, ou ironicamente fazendo atalhos de julgamentos que ele armou.
Estas outras possibilidades – reações graduadas, respostas contraditórias,
distanciamento irônico – serão todas importantes, considerando-se a aliança
perversa.” (SMITH, 1999: 220)
No caso da
seqüência inicial de Silêncio dos
Inocentes, por outro lado, nos confrontamos com um regime em que esta
economia das relações entre o “alinhamento” cognitivo e a “aliança” moral são
consideravelmente alterados: somos introduzidos ao universo da fábula através
do ponto de vista exclusivo da cadete Clarice Starling, uma agente do FBI em
treinamento, que ambiciona trabalhar para o Departamento de Ciências
Coportamentais da agência, e que recebe a incumbência de seu antigo professor e
diretor do departamento, para fazer uma entrevista com um assassino em serie
que é prisioneiro em uma instituição psiquiátrica. Do ponto de vista da
construção cinemática, contudo, esse ponto de vista que configura o referido
alinhamento não é feita de modo tão expresso, como no caso de Dexter, mas
através de operações muito mais sutis – e que constituirão, em retrospecto,
autenticas “marcas de estilo” de seu diretor, Jonathan Demme.
Silence of the Lambs (1992), dir. Jonathan Demme – encontro de Clarice e Crowford
5. De saída, quando a agente se encontra com seu mentor,
o sistema da encenação em plano/contra-plano assume uma peculiar característica
de heteronomia – já que, quando o enquadramento se fixa em Clarice, seu olhar
não se dirige diretamente à câmera, ao passo que o rosto de Crowford é
enquadrado com seu olhar dirigido à objetiva, em clara infração de uma regra
implícita da encenação fílmica (a da interdição ao olhar direto). Do ponto de
vista de uma lógica da narração, contudo, esse procedimento é um marcador do
sistema de alinhamento da fábula pelo ponto de vista da personagem: quando seu
chefe nos fita, é para ela que ele olha, ao passo que ela retorna o olhar, mas
para uma perspectiva situada alem do ponto de vista do enquadramento.
Esse sistema
perdura pela encenação destes primeiros momentos do filme, passando pelo
contato de Clarice com o Dr. Shilton, até finalmente o momento de seu encontro
com Hanibal, para efetuar a missão que lhe foi atribuída: é exatamente a partir
desse encontro que algo de significativo acontece com o processo de alinhamento
– pois o sistema da encenação do dialogo agora converteu Clarice e o canibal em
iguais, do ponto de vista do alinhamento (pois ambos são enquadrados no
dialogo, nos momentos em que proferem suas falas, ambos olhando diretamente
para a câmera). Estabelece-se neste ponto uma determinada lógica da trama, pela
qual nossa visão e avaliação acerca do criminoso vai sendo contaminada por
aspectos do alinhamento que nos foi conferido pela perspectiva mesma da
aprendiz.
Silence of the Lambs (1992), dir. Jonathan Demme – primeiro encontro de Clarice Lecter
É neste ponto que
podemos começar a configurar uma aliança emocional com a perversidade do
criminoso, em função da natureza e do desfecho dessa primeira troca verbal
entre Clarice e Lecter: podemos dizer que nossa aliança com o canibal é mediada
no filme pelo alinhamento que experimentamos, a partir do ponto de vista
narrativo e cognitivo da aprendiz de agente. Encontramo-nos aqui numa faceta
sofisticada da apreciabilidade daquilo que é detestável, em razão de que tal
objeto nos é instruído por uma perspectiva (normalmente oriunda do espaço
actancial da história) que inclina-se afetiva e emocionalmente por ele – caso
classicamente ilustrado pelo fato de que as aventuras do misantropo
investigador Sherlock Holmes ser o resultado da mediação admirada que nos é
comunicada pelos diários de seu parceiro e amigo John Watson.
Para alem,
portanto, do fato de que o personagem de Lecter ser portador de qualidades como
espirituosidade, ironia, divertimento (não obstante ser um confesso devorador
de suas vitimas, tanto física quanto psiquicamente), não podemos negligenciar o
fato de que tais características são quase que inteiramente expostas a nós em
situações de sua interação com a protagonista Clarice. Trata-se de um caso bem
mais sofisticado e complexo da formação de alianças com agentes narrativos, na
medida em que (diferentemente do exemplo de Dexter) ela implicar a obliqüidade
e a disjunção funcional da determinação automática entre “alinhamento” e
“aliança”.
“O
filme mantém seus |de Lecter| traços e ações imorais no plano de fundo e
insiste sobre seus atributos positivos, através de seu amor quase paternal por
Clarice Starling. Como no caso da estrutura do personagem ‘bom-mau’, o sistema
moral interno do texto faz o personagem ser atrativo relativamente a outros
personagens. Em suma, qualquer aliança que formemos com Lecter será do tipo que
se desenvolve não obstante, ao invés de por causa de sua perversidade. A
perversidade da aliança é, outra vez, mais aparente que real.” (SMITH, 1999:
227)
Assim, avaliamos
as duas grandes dimensões nas quais a composição de uma estrutura actancial da
fábula permite funcionalizar os níveis através dos quais a evolução da fábula
determinará as condições de nosso engajamento emocional e moral no destino da
trama: é através desse jogo entre a orientação perceptiva e cognitiva,
conferida pelo nosso “alinhamento” com a fábula (conferido pela posicionalidade
da exposição narrativa), de um lado, e as “alianças” emocionais e afetivas que
construímos com determinados agentes (em função da carga moral de nossa
identificação com os mesmos), por outros, é que podemos entender não apenas
como o trama se desenvolve, na lógica seqüencial que é própria, segundo as
“leis do drama”, mas também como é possível que tal aliança se construa em
conformidades não-lineares (e até contraditórias) com os quadros morais que
orientam nossa conduta em nossos mundos sociais.
Referências Bibliográficas :
GAUT, Berys. “Identification
and emotion in narrative film”. In: Passionate
Views: film cognition and emotion: pp. 200, 216;
SMITH,
Murray. “Gangsters, Cannibals, Aesthetes, or apparently perverse alliegiances”.
In: Passionate Views: film cognition and
emotion: pp. 217,238.
Leituras Adicionais:
FELTRIN,
Fabio. “O Paradoxo dos Vilões Simpáticos: caracterização dos personagens nas
produções audiovisuais”. In: Revista de
Estudos Comunicacionais, 11/26 (2010): pp. 261,265;
Próximas Leituras :
GENETTE, Gérard. “Frequência”. In: Discurso da Narrativa: pp. 113,158;
NEWMAN, Michael.
“From Beats to Arcs: towards a poetics of television narrative”. In: The Velvet Light Trap. 58 (2006): pp.
16, 28.
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