Notas da 4a sessão do curso: estruturas actanciais e evolução narrativa (R.Barthes e U.Eco)


Ficção Seriada (GEC 128)
Aula no 4 (22/04/2019)

Estruturas Actanciais e Curvas Dramáticas: a evolução disjuntiva das histórias em formatos seriados de ficção televisiva (U. Eco e R.Barthes)

1. No ponto em que deixamos a exposição da última sessão do curso, ao tratarmos da questão dos regimes da orientação narrativa das historias em formatos seriados de ficção televisiva, o problema das modalidades de focalização narrativa já prenunciava um caminho de nossa argumentação no qual a questão da função dos agentes narrativos assumiria uma maior proeminência do que aquela de nossos supostos sobre uma instância da narração externa aos universos ficcionais.

Neste ponto de nossa exploração, portanto, compreender que a história é assumida de algum ponto de vista determinado, seja este externo ou interno à diegese, era algo que somente assume a função adequada na qual experimentamos obras narrativas, quando seu exercício deixa de ser implicado pelo suposto de uma voz ou de uma lógica transcendente ao enredo e passa a se efetivar a partir da lógica mesma dos acontecimentos da fábula. É nesse contexto, portanto, que o problema da orientação narrativa da história se desloca para o âmbito daquilo que certos ramos da semiótica textual e das teorias da narrativa designam como uma “estrutura actancial” das histórias.

Tais estruturas são aquelas que compõem um tecido narrativo com a função expressa de situar o universo das ações no âmbito das disposições, inclinações, planificações e mesmo na performance mais explícita da conduta dos agentes – especialmente no aspecto em que estas nos auxiliam a formar certos quadros da dinâmica evolutiva da fábula, naquilo em que indicam determinadas polaridades que conferem um interesse dramático mais ou menos específico: é no âmbito das “estruturas actanciais” que encontraremos as funções que exercitam a evolução dos acontecimentos como sendo menos relativas a um percurso puramente causal e vetorial do sentido, mas àquele que nos auxilia a enquadrar os agentes em torno dos quadros oposicionais de uma história (por exemplo, no tocante aos valores que se encontram em disputa e na função que cada uma dessas posições comunica sobre a função especifica de cada agente).

Assim sendo, as narraivas (e não apenas as literárias) dispõem da sucessão dos acontecimentos em uma fábula não apenas na sua relação com uma estrutura temporalizada das seqüências de eventos: aspectos como o do perfil actancial dos agentes (o caráter motivacional, moral e psicológico das personagens que agem), manifestos no modo de apresentação de seu engajamento nas ações. A título de ilustração apenas, examinemos uma seqüência narrativa que parece exprimir muito bem a imensa variedade dos aspectos que contribuem à formação de uma organicidade (textual, perceptiva, estética, dramática) da significação de uma seqüência narrativa e que deriva da valorização simultânea de ações plenamente significativas (articuladas pelo tema geral da história) e outras que são completamente esvaziadas deste sentido, mas que permanecem plenamente funcionais, sob outros aspectos da evolução da história narrada:

 The West Wing – “Five votes down” - Aaron Sorkin/Michael Lehmann (1999)

No grande plano-sequência que dá início a este episódio da primeira temporada do seriado The West Wing, podemos identificar aquilo a que Barthes caracteriza em seu texto como sendo o “código proairético” das ações, por ele definido como o elemento fundamental da ordem narrativa, em seu aspecto de produção de valores disjuntivos e de resolução das seqüências de ações: em primeiro lugar, deve-se destacar que é o próprio diálogo entre as personagens que se constitui como elemento organizador da evolução da seqüência enquanto “sucessão de ações”; isto é particularmente importante, na medida em que as situações de diálogos entre agentes da história são tradicionalmente identificadas com segmentos não propriamente narrativos.

Neste sentido, temos que admitir que a interação verbal entre as personagens da seqüência assume conotações mais dinamizadoras, nos dois sentidos principais em que isto importa para uma teoria da narrativa: de um lado, ela acontece no decorrer de uma sucessão de eventos que pontua a evolução espaço-temporal dos agentes (eles conversam enquanto fazem um percurso); em segundo lugar, o próprio conteúdo destas interações serve como indicativos das perspectivas tópicas do desenvolvimento da história, como veremos mais adiante

Mais importante que tudo é o fato de que, uma vez assimilada ao regime das sucessões, esta série de diálogos assume a condição de uma ação, no aspecto mesmo em que sua organização isotópica é estruturada sobre o tal “código proairético” de que fala Barthes: ele reporta esta noção às doutrinas éticas da filosofia de Aristóteles, em especial no que respeita a faculdade deliberativa própria às ações humanas, na medida em que a ocorrência destas últimas sempre manifesta-se na implicação necessária de uma abertura de valores e possibilidades que definem sua conclusão possível (esta relação perspectiva com a finalidade da conduta define a proairese em seu aspecto de compromisso da ação tomada com seu destino pretendido).

“...propus chamar esse código das ações narrativas de código proairético. Ao estabelecer a ciência da ação ou práxis, Aristóteles, de fato, fá-la preceder uma disciplina anexa, a proiaresis, ou faculdade humana de deliberar antecipadamente o final de um ato, de escolher (é o sentido etimológico),entre dois termos de uma alternativa, aquele que se vai realizar.” (BARTHES, 2001: 156,157).  

2. A seqüência deste episódio em questão é plena de situações características deste regime proairético das ações: em sua estrutura tópica mais geral, esta seqüência envolve dois grandes eixos temáticos da história, um dos quais será desenvolvido no decorrer de todo o episódio (aquele que confere inclusive o título do mesmo “Five Votes Down”, a saber: o do esforços dos membros do staff presidencial de Jed Bartlet em conseguir de volta cinco votos em favor de um projeto de lei que estava para ser aprovado no Congresso, determinando o banimento de armas de fogo domésticas).

O segundo deles é o da uma súbita improvisação feita pelo presidente, no decorrer de seu discurso perante grupos de apoio que acabara de pronunciar. Para além destes dois tópicos, apenas uma série de inserções parentéticas sobre diversos aspectos associados ao universo episódico ou aos caracteres da trama, sendo que a evolução das ações no plano-seqüência concentra-se especialmente nos dois primeiros temas, a perda dos votos e a improvisação feita no discurso. As mudanças de perspectiva tópica constituem um importante índice da estrutura disjuntiva das ações funcionalizada narrativamente – para além do fato de que a resolução destas disjunções é questão de proairese.

A estrutura na qual estes diferentes eixos temáticos se articulam, no decorrer da seqüência em questão (ou seja, o modo como sua coerência interna ou “isotopia” narrativa é efetivamente construída na sucessão de seus segmentos) pode ser explanada pela relações fortemente proairéticas (portanto, originadas em disjunções de várias ordens, resolvidas por um arbítrio externo ou interno à evolução diegética) que a sucessão dos diálogos estabelece, especialmente na correlação entre a mudança feita entre cada um dos assuntos e as contínuas mudanças de focalizações do plano-seqüência nas personagens que evoluem fisicamente em cena - nos diversos diálogos que elas mantêm entre si.

No caso desta seqüência de The West Wing, é evidente que estes sucessivos turnos entre temas das conversas não é estabelecido pela evolução das relações entre as personagens, mas também pela própria narração – como uma instância afastada da perspectiva específica de cada um dos agentes da história; isto ocorre basicamente porque estas conversas se dão entre um número consideravelmente variável de agentes narrativos, num contexto de permanente movimentação dos mesmos, assim como dos deslocamentos a que nosso olhar é submetido, pela decupagem en route, por dentre as diferentes seções do staff presidencial, enquanto seus membros se dirigem à garagem do hotel, de modo tal que as trocas de assuntos são inteiramente derivadas da atenção que a cena (como uma instância enunciativa geral) dedica a diferentes grupos dos protagonistas.

3. Um aspecto importante da ordenação da seqüência que promove a fluidez destas trocas é o fato de que toda a ação e todas as escolhas que a narração faz, em termos do foco sobre os agentes da historia é promovida pelas modulação de um movimento contínuo e ritmado, tanto no plano das escolhas de decupagem quanto no do próprio ritmo constitutivo dos diferentes diálogos. Em toda esta evolução das ações na seqüência (da qual destacamos apenas alguns aspectos discretos da evolução dos acontecimentos, dos temas dos diálogos e do modo como a montagem no interior mesmo do plano segmenta os espaços seqüenciais nos quais nossa atenção ficará rendida), evoca quase à perfeição aquilo que Barthes caracteriza acerca do “código proairético”, com respeito às funções que ele executa para manter viva a evolução da narrativa.

“ …é óbvio que, colocada a cada ação diante de uma alternativa (dar-lhe tal ou tal prosseguimento), a narrativa sempre escolhe o termo que lhe é proveitoso, isto é, que garante a sua sobrevivência enquanto narrativa; nunca a narrativa marca um termo (enunciando-o como se cumprindo) que apague a historia, que a leve a dar meia-volta: existe de certo modo um verdadeiro instinto de conservação da narrativa que, de duas saída possíveis implicadas pela ação enunciada, escolhe sempre a saída que faz a historia ‘retomar-se’”. (BARTHES, 2001 : 157).

No interior desta seqüência exemplar de uma modalidade proairética da sucessão narrativa, encontraremos também as relações fundamentais que definem, para Barthes, a funcionalidade das ações, no contexto da historia narrada :

·      em primeiro lugar, a ordem da sucessão é aqui perfeitamente “consecutiva” e “conseqüencial” (no sentido em que a evolução dos eventos pode até não ser cronologicamente pura, mas decerto logicamente conseqüente, tanto do ponto de vista das ações quanto no da narrativa);
·      em seguida, a seqüência reflete uma dimensão “volitiva” das ações (já que as manifestações verbais de toda o plano traduzem as inclinações e motivações, o caráter e a disposição dos falantes, tanto no plano do tópico específico das conversas, quanto no de sua função do esquema global da história do episódio e do seriado);
·      sob um terceiro aspecto, a sucessão é “durativa” (pois nela se encontram as claras marcações do início e do fim das ações, como elementos instrutivos da compreensão sobre aquilo que importa em sua exposição);
·      finalmente, a seqüência estrutura-se sobre o caráter “reativo” e “eqüipolente” das interações entre personagens (na medida em que se fundam numa ação característica, como a do diálogo, que presume um esquema seqüencial baseado na necessária alternância das manifestações verbais e não numa mera mecânica causal da sucessão).

Para além de ser perfeitamente “consecutiva” e “conseqüencial”, há outros aspectos desta ordenação sucessória das ações que merecem ser destacados aqui, já que elas dirigem nossa atenção para um aspecto da estruturação tópica do discurso narrativo que se coloca para além dessa sua ordenação mais estritamente temporal. Destaquemos, de saída, a dimensão “volitiva” guiando as disjunções que fazem nascer a proairese – enquanto elemento que promove a sucessão narrativa: para além de orientar o sentido disjuntivo e resolutivo das ações, esta mesma estrutura proairética da situação narrativa é auxiliar na constituição de uma outra dimensão das ações, que deve ser explorada em separado.

No modo como Aaron Sorkin - o criador de The West Wing - discrimina a importância que os personagens assumem para sua criação, é bem razoável identificarmos essa sua predileção com aquilo que certas tradições da semântica textual designaram como sendo a “estrutura actancial” da narrativa, ou seja: aquela dimensão da ordenação das ações que nos permite identificar o universo da história não apenas como uma organização seqüencial de eventos, mas também – e sobretudo - como o lugar no qual se fixam os valores (morais, psicológicos, disposicionais) dos agentes da historia, assim como o modo como a estrutura episódica arranja a disposição destes elementos, em função de um sistema de oposições conceituais do universo estruturado da movimentação da história, especialmente na sua relação com os personagens (agente/paciente ou protagonista/antagonista/coadjuvante).

The West Wing – “Crackpots and these women” (1999) – Aaron Sorkin/Anthony Darzan

Especialmente na interação verbal entre as personagens de Toby Ziegler e do presidente Jed Bartlet, pode-se ressentir que o diálogo mantido entre eles - durante um jogo de basquete no fim de um dia de expediente na Casa Branca - não serve apenas para representar a condição dinâmica da troca argumentativa entre ambos, mas delimita igualmente os “espaços actanciais” próprios a cada uma dessas personagens, especialmente se pensarmos nesta figura da “actância” como aspecto da organização estrutural do universo das ações narradas - portanto, menos na perspectiva da identificação com os personagens concretos da história, mas com o das funções pelas quais a presença dos agentes fornece o eixo pelo qual se compreende a ação como portadora de valores de sentido para a compreensão de vários aspectos do universo tópico da história.

4. Quando contemplamos as duas seqüências desse seriado aqui exibidas (e que, não casualmente, são perfeitamente consecutivas, abrindo os 4o e 5o episódios de sua primeira temporada), descobriremos uma importante implicação que nelas se verifica entre a dinâmica narrativa das ações e o plano actancial de sua atualização: poderemos então imaginar que as duas conversas entre esses agentes da trama se dá em torno de um certo “valor” que ambos disputam na prática - ou “sentido” – e pelo qual a atuação do presidente é avaliada por aquele que é responsável por configurar um aspecto de sua imagem política - seja no âmbito da entrega de um discurso ou do comportamento assumido pelo presidente em um jogo.

Nestes termos, há uma igual relação dual de “contrato” e “sanção”, que atravessa o exercício do discurso presidencial, de um lado ao outro de sua realidade (ele foi demandado pelo presidente ao seu escritor; uma vez consumado, ele se constitui para sua execução a partir das marcas que Toby Ziegler anseia que o presidente respeite, em sua performance), aspecto este que define os papéis actanciais destes dois personagens na economia da história. Algo de mais expressamente ligado ao desenho de caráter das personagens acontece na seqüência da partida de basquete, pois o personagem de Toby Ziegler assume um discurso sobre o caráter do presidente, o que desloca a narração do âmbito das ações do jogo para o da disputa sobre essa interpretação sobre o perfil presidencial.

Essa seqüência do jogo de basquete em The West Wing nos ilustra um aspecto importante do modo como a estrutura proairética das ações nos favorece a fixar os domínios actanciais próprios aos personagens da seqüência: uma vez dada sua estrutura tópica mais fundamental (definida pelo eixo temáticos do jogo que a equipe performa), o elemento que nos interessa aqui é aquele de um súbito deslocamento da sucessão do jogo e a valorização do desenho caracterológico dos agentes, seja no plano do discurso de Toby Ziegler ou no das atitudes posteriores do presidente. Neste caso, conforme a seqüência vai evoluindo nas diversas trocas de diálogos entre personagens, devemos pensar se esta evolução e variação não está também a serviço de uma melhor apresentação da estrutura actancial global do episódio, neste plano preciso em que se define como o sistema oposicional dos valores (psicológicos, de intenção, de caráter) próprios a cada uma das personagens do episódio.

Assim sendo, a estrutura na qual estes diferentes eixos temáticos se articulam, no decorrer da seqüência em questão (ou seja, o modo como a isotopia da mesma é efetivamente construída), pode ser explanada não apenas pela relações proairéticas que instaura na seqüência (de aberturas e fechamentos de possibilidades disjuntivas, no vetor puramente seqüencial da história), mas também pelo modo como melhor define os agentes narrativos, através das continuas variações de focalizações do plano-seqüência nas personagens que evoluem fisicamente em cena, tudo se passando através dos diversos diálogos que elas mantêm entre si.

Tudo isto ilustra o fato bem importante de que as estruturas actanciais assim definidas como uma importante dimensão dos processos cooperativos de leitura pelos quais o intérprete atualiza o texto em sua multiplicidade de aspectos, não posem ser facilmente separadas dos processos pelos quais atualizamos estruturas discursivas e narrativas de uma historia : fixar o caráter dos agentes é algo que se faz, no ato mesmo de estipular a estrutura discursivo-tópica de uma narrativa (em suma, não há história sem agentes).

Para Umberto Eco, por exemplo, esta conjunção entre a organização actancial do universo da história e de sua estrutura discursiva (tópica e isotópica) é, inclusive, um dos elementos que nos permite constituir as bases do processo cooperativo pelo qual o leitor vai atualizar a trama, nos processos de leitura. Assim sendo, um aspecto decisivo dos processos em que o leitor atualiza uma estrutura discursiva (estabelecendo um topic e uma isotopia), assim como as lineariza em seqüências narrativas, é o conjunto de hipóteses que lançamos, neste contexto, sobre o papel actancial das personagens envolvidas na fabula estabelecida, tendo em vista a formulação das macroproposições narrativas.

Para além disto, é necessário que sejamos capazes de determinar a natureza mesma das ações, em um aspecto de sua actância que não é a dos agentes – tomados enquanto figuras empíricas de “personagens” da ação - mas a do caráter, por assim dizer, perspectivo dos segmentos narrativos (são eventos que ocorrem como fatos objetivos, são ocorrências que se passam na lembrança de um agente), além do fato de que exprimem uma posição temporal do discurso na sua relação com a ordem temporal da historia (aspecto este que deixaremos para elaborar mais à frente).

Nestes termos, quando examinamos em retrospecto aquela seqüência do diálogo entre Sam Seaborn e Toby Ziegler, após o discurso presidencial, e a avaliamos no contraste com o comportamento deste último em face do presidente Bartlett, aquele plano-seqüência mobiliza nossa atenção para o caráter respectivo de cada um destes personagens, na sua relação com este segmento tópico da discussão sobre a intervenção improvisada do presidente em seu pronunciamento – sendo que o peso do personagem de Toby Ziegler é mais proeminente neste aspecto do que o de seu auxiliar, já que é em torno de seu incômodo pessoal com esta iniciativa do presidente que esta tópica da seqüência vai ser desenvolvida, nas interações subseqüentes entre os dois, mais à frente (ao passo que Sam Seaborn apenas avançará neste segmento em outra interação com um membro da equipe a respeito de certas incongruências temáticas do discurso presidencial).

5. Até aqui, contudo, examinamos essa questão das estruturas actanciais de universos narrativos, nos aspectos genéricos do auxílio ao firmamento da incorporação de um sistema de oposições valorativas que auxilia a sedimentação de nosso interesse sobre a evolução da história: ao tratarmos de um exemplar dessas estruturas em formatos seriados de ficção televisiva, ficamos restritos às estratégias de indicação dessa função actancial, num sentido mais estável da organização dessas disputas valorativas dentro de um universo ficcional. Seria o caso de avaliar outras dimensões dessa operatividade da organização dos espaços actanciais, em contextos de inflexão dessas estruturas, especialmente quando se trata de instruir mudanças importantes na ordem da relação entre os agentes da fábula.

Em termos, no caso de uma série como The West Wing, é fato que os exemplos que tratamos conferiam uma dimensão dos espaços actanciais que é particularmente importante no âmbito das etapas introdutórias da exposição dos universos ficcionais – quando é necessário situar a recepção no contexto mais amplo e, uma vez mais, estável da organização das relações entre os agentes narrativos. Há que se avaliar, entretanto (e especialmente em se tratando de obras narrativas de longa extensão), que tais princípios do reconhecimento da função actancial de um personagem podem sofrer inflexões importantes – quer se trate de projetar os novos papéis que os agentes possam cumprir no âmbito dos esquemas globais da fábula ou então no retrospecto que é eventualmente necessário construir para a origem de personagens e das disposições que estes assumem na economia da diegese.

Neste último caso, podemos abordar exemplos de formatos seriados de ficção televisiva nos quais a lógica mesma dos acontecimentos permite um momentâneo recuo temporal no âmbito da evolução normal da trama, de modo a permitir uma exposição sobre a gênese de determinadas características de algum personagem especial: no caso de Once Upon a Time, o episódio “Dreamy” (S01/E14) nos introduz a uma fábula específica acerca da origem do personagem do anão Zangado, partindo de uma suspensão feita sobre a lógica específica dos episódios da série (que é pautada por uma modalidade “singulativa” de sua estrutura episódica).

 Once Upon a Time (S01/E14), “Dreamy”

Ainda que construída sobre o paralelo entre o universo originário dos contos de fadas e a fábula contemporânea que organiza a série como um todo, ainda assim este episódio tem a função de isolar a história dessa origem de uma personagem, por razões que são possivelmente específicas à lógica global da fábula. De nosso ponto de vista, contudo, o interesse desse exemplo se justifica pelo fato de que sua própria lógica é caracteristicamente centrada sobre a gestação mesma desse agente, mais do que sobre os universos globais da ação da série, como um todo – aspecto que o episodio aborda de maneira apenas parcial – como no caso da prisão de um dos protagonistas, ao fim do segmento. 

 Once Upon a Time (S01/E14), “Dreamy”

Em outros casos, a função de uma inflexão feita sobre os universos de agentes da fábula se deve à necessidade de realinhar os papéis actanciais atribuídos a determinados personagens: no caso de um exemplo como o do episódio de House MD “Nobody’s Fault” (S08/E11), efetua-se o mesmo tipo de inflexão sobre a estrutura episódica tradicional da série (aqui pautada por um regime freqüencial entre o iterativo e o repetitivo), de modo a encenar uma série de eventos que recairão sobre a equipe médica de Gregory House, com especial ênfase sobre um dos personagens – e com efeito significativo para o modo como a 8a e última temporada da série reservará a este personagem um conjunto significativo de mudanças em seu papel dentro da fábula.

House MD (S08/E11), “Nobody’s Fault”

Nos dois casos, é particularmente importante notar como as modificações da estrutura actancial global da fábula implicam na necessidade de suspensão da estrutura episódica tradicional de ambas as séries, assim como acarretam para os episódios em questão uma lógica interna pautada pela retrospecção dos eventos que os conduzem, ambos servindo para a reorientação dos universos ficcionais na evolução posterior dos seriados. Com isto, podemos avaliar algumas das dimensões nas quais a composição desses universos actanciais encontra-se refletida (assim como é afetada também) pela lógica evolutiva própria das séries, seja no âmbito de sua estrutura episódica como no da evolução dos arcos dramáticos através de episódios solidários ou mesmo de temporadas integrais.

Na decorrência desse fenômeno de atribuição da lógica interna dos universos de fábula em formatos seriados de ficção televisiva, encontraremos um outro tipo de efeito decorrente das estruturas actanciais e de suas transformações, no decorrer da evolução temporal desses formatos: a tal propósito, avaliaremos a seguir a correlação entre o modo de composição dos universos de agentes da história e sua função orientadora da identificação e aliança que eles indicam, no horizonte d recepção e da compreensão dos papeis actanciais em universos ficcionais seriados.

Referências Bibliográficas :
BARTHES, Roland. “A sucessão das ações”. In : A Aventura Semiológica: pp. 156, 163;
ECO, Umberto. “Estruturas actanciais e ideológicas”. In : Lector in Fabula: pp. 151,162.

Próximas Leituras :
FELTRIN, Fabio. “O Paradoxo dos Vilões Simpáticos: caracterização dos personagens nas produções audiovisuais”. In: Revista de Estudos Comunicacionais, 11/26 (2010): pp. 261,265;
PLANTINGA, Carl. “The scene of empathy and the human face on filme”. In: Passionate Views: film cognition and emotion: pp. 239, 256;
SMITH, Murray. “Gangsters, Cannibals, Aesthetes, or apparently perverse alliegiances”. In: Passionate Views: film cognition and emotion: pp. 217,238.


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