Notas da 7a sessão do curso: padrões de escrita dramatúrgica em séries de TV - o caso de Aaron Sorkin (U.Eco/J.Mittell)
Ficção Seriada (GEC 128)
Aula no 7 (03/06/2019)
Padrões Textuais da Escrita Dramatúrgica: o caso de Aaron Sorkin (U.
Eco/J.Mittell)
1. Neste momento de
nossa exposição, nos situamos mais diretamente dentro do contexto dos
formatos televisivos de ficção seriada e de seu peculiar modo de viabilizar uma
maior centralidade do trabalho do roteirista, como matriz autoral das obras:
delineando tais movimentos iniciais dos modos de operação em que jogam-se a
dramaturgia e a encenação audiovisual, nos cumpre examinar como é que tais
marcas estilísticas do trabalho do roteirista serão progressivamente
desenvolvidas, no contexto da criação de universos ficcionais seriados de
televisão, nas dinâmicas de negociação próprias a esse segmento cultural, mas
sempre cuidando de trabalharmos essas questões a partir do interior das obras
em questão.
No início desse
outro percurso, emerge para nós o problema do estabelecimento dos universos
narrativos e ficcionais, e do modo como seu desenvolvimento se dá
necessariamente à sombra dos marcadores característicos de sua concepção
dramatúrgica - envolvendo assim o desenho dos personagens, dos espaços
privilegiados de suas ações e das dinâmicas dramáticas que envolvem seu
percurso (numa modalidade que o próprio Sorkin freqüentemente designa como
sendo a da “intenção e obstáculo”).
Para esse
primeiro momento, gostaríamos de nos centrar nessa questão dos caracteres e dos
tipos de conflito que se gestam no modo através do qual eles se constituem nos
universos ficcionais de Sorkin, sendo esse o tema central dessa exposição. Mas
antes, gostaríamos de contextualizar esse aspecto da composição dramatúrgica, a
partir dos cenários teóricos sobre a questão da serialidade narrativa que
diversos autores fixaram para determinados perfis da “complexidade narrativa”,
supostamente própria aos formatos ficcionais seriados de televisão – contexto
no qual se pode reclamar a validade de uma pesquisa acerca do estilo nesse campo
cultural especifico.
2. Um dos aspectos
mais recorrentes na argumentação acerca da importância e da pertinência dos
estudos sobre formatos seriados televisivos na contemporaneidade deriva de um
conceito que adquiriu enorme valor de caixa no campo de estudos da mídia – e,
talvez por isso mesmo, sendo infelizmente adotado nos circuitos de discussão
sobre formatos televisivos de uma maneira predominantemente acrítica: trata-se
da idéia da “complexidade narrativa” e do uso – e igual abuso - do qual ela é
objeto, quando incorporada à questão do exame sobre a serialidade televisiva
(especialmente no caso das obras de ficção). Dentre os muitos problemas de sua
adoção, encontra-se a evidente duplicidade com a qual seu emprego na crítica
cultural e na análise acadêmicas da ficção seriada televisiva joga com os
aspectos simultaneamente “heurísticos” e “valorativos” de sua admissão como
chave de explicação sobre os fenômenos desse campo.
Na formulação que dela nos dá Jason Mittel, em reiteradas formas de sua
exposição (da qual retemos aqui com sendo mais exemplar seu famoso texto de
2006 sobre este mesmo conceito na televisão americana contemporânea), esse
aspecto oscilante do conceito de complexidade é expressamente tratado pelo
autor: ainda que argumente - na base de uma “poética histórica” cuja fonte é
igualmente sede de possíveis disputas sobre seu melhor uso – que tal
complexidade é uma inflexão característica dos formatos televisivos de ficção
seriada, merecendo estudo sistemático: justamente em função da singularidade de
sua emergência na experiência que fazemos dessas obras em nosso tempo, Mittell
reconhece que o conceito de “complexidade narrativa” envolve igualmente uma
significativa partícula de juízo de valor estético sobre aquilo que diferencia
as formas seriadas de hoje, em relação a suas versões convencionais do passado
(em nosso caso, consagradas pelos modelos de seriação da telenovela, por
exemplo).
“Complexidade e valor não se implicam mutuamente –
pessoalmente, prefiro assistir a programas convencionais de alta qualidade como
The Dick van Dyke Show e Everybody Loves Raymond do que a 24 Horas, que é narrativamente complexo
mas confuso e logicamente enlouquecedor. No entanto, a complexidade narrativa
oferece uma gama de oportunidades criativas e uma perspectiva de retorno do
publico que são únicas no meio televisivo. Ela deve ser estudada e entendida
como um passo chave na história das formas narrativas televisivas. Podemos
pensar que a fruição proporcionada por narrativas complexas são mais ricas e
mais multifacetadas do que aquela oferecida pela programação convencional. No
entanto, os juízos de valor devem estar associados a programas específicos mais
do que a exaltar a superioridade de todo um modelo ou gênero narrativo.”
(MITTELL, 2012: 31)
Outro aspecto teoricamente delicado da ambigüidade argumentativa em
torno da “complexidade narrativa” em Mittell se depreende do suposto de uma
“especificidade televisual” do fenômeno, naquilo que parece vindicar a
legitimidade de uma abordagem estética dos formatos televisuais – com ganhos
epistêmicos que parecem menos evidentes do que aqueles da mera legitimação
política de um discurso sobre estudos dos universos mediáticos: uma tal
estratégia – de resto, freqüente em nosso campo de estudos – resulta na patente
dificuldade de combinar as peculiaridades mediáticas, institucionais e
políticas das estratégias textuais, poéticas e estéticas da serialização
televisiva, de um lado, com os padrões culturais e históricos mais amplos
desses mesmos procedimentos, não obstante os suportes ou formatos nos quais são
consagrados, de outro.
“Certamente as mudanças na industria televisiva
ajudaram a reforçar as estratégias para a complexidade. A lógica tradicional da
indústria assumia que a inconstância do público a narrativas seriadas
semanalmente e as pressões relacionadas a direitos favorecem a manutenção de
episódios de sitcoms convencionais e
de dramas processuais intercambiáveis. Mas conforme o numero de canais cresceu
e a audiência de qualquer tipo de programa foi reduzida, as redes de televisão
e seus canais acabaram por reconhecer que para um programa ser economicamente
viável pode ser suficiente um publico seguidor pequeno, porem dedicado.”
(MITTELL, 2012: 34)
Em tal contexto, não apenas a insistência em caracterizar as implicações
entre a emergência das novas formas de circulação mediática de narrativas
seriadas, assim como também a valorização de regimes da atenção a aspectos
puramente técnicos da realização das obras (como a chamada “estética
operacional” dos formatos seriados) são todos elementos da abordagem de Mittell
da “complexidade narrativa” que dificultam a apreensão da especificidade na
qual os mesmos podem ser empregados em contextos de uma experiência de
universos ficcionais que não se confundam com o perfil do “consumo cultural” –
como espécie de versão culturalista do problema da “experiência estética”,
freqüentemente empregada como anátemas de uma abordagem sobre a poética da
televisão, em seus formatos e programações. Em aspectos como tais, a caracterização
histórica da complexidade que atravessaria um segmento da produção cultural dos
formatos seriados transforma – ou, mais propriamente, deforma – a matriz originária das questões que se poderiam fazer a
tais fenômenos, naquilo que exprimem de uma experiência estética da
narratividade (e de suas condicionantes poéticas).
3. Na perspectiva
que pretendemos consagrar, uma tal noção de “complexidade narrativa” – tratada
eventualmente, mas apenas parcialmente por Mittell – implica uma radical
valorização dos aspectos imanentes
das obras seriadas, valorizados em seu aspectos de “programações de efeito” que
fazem sobre a audiência, assim como uma considerável torção que propomos, no
costume dos estudos televisivos em assimilar a recepção à própria audiência -
na medida em que propomos que a recepção seja abordada muito mais como um
horizonte de competências e capacidades para responder aos programas textuais
das obras do que às demografias empíricas, quantificadas pelos aspectos da
efetiva resposta às obras, em termos de índices de audiência ou de participação
em comunidades socialmente ativas de gosto.
Em outro quadrante da reflexão sobre os formatos seriados, na
perspectiva de análise consagrada por Umberto Eco (quando aborda o problema das
dinâmicas internas de “repetição e inovação”, inerentes a tais obras), a
dimensão social e historicamente relevante de seu estudo não se pode dar às
custas de uma compreensão sobre tais interações que os materiais televisivos de
ficção seriada fazem com um horizonte “enciclopédico” da compreensão: nesse
contexto, o problema da “complexidade narrativa” é menos derivado das
circunstâncias históricas e sociais da evolução dos formatos televisivos, mas
daquilo que tais contextos permitem explorar como dinâmicas ou dialéticas da
interação entre textos e universos de leitura – na perspectiva em que
determinadas teorias estéticas e semióticas as trabalharam, como aspecto da
organização semântica, sensorial e emocional do endereçamento às enciclopédias
presumidas da compreensão.
“Todo texto pressupõe e constrói um duplo Leitor
Modelo. O primeiro usa a obra como um dispositivo semântico e é vítima das
estratégias do autor que o conduz passo a passo ao longo de uma série de
previsões e expectativas; o outro avalia a obra como produto estético e avalia
as estratégias postas em ação pelo texto para construí-lo justamente como
Leitor Modelo de primeiro nível. O leitor de segundo nível é o que se empolga
com a serialidade da série (...) não tanto com o retorno do mesmo (que o leitor
ingênuo acreditava ser outro) mas pela estratégia das variações, ou seja, pelo
modo como o mesmo inicial é continuamente elaborado de modo a fazê-lo parecer
diferente.” (ECO, 1989: 129)
Segundo o próprio
Mittell, uma poética da complexidade nos universos seriados da televisão deve
levar em conta particularmente importante a função de episódios como o
“piloto”, que introduzem os universos narrativos da trama, de maneira a
orientar ou provocar o espectador (a partir de seus variados “programas de
efeito”) na direção de um possível acompanhamento da obra, a seguir: nesse
sentido, ele designa a “poética do piloto” como orientada para a descrição das
variadas formas nas quais o primeiro episodio de uma série televisiva é
atravessado de diferentes modos para estabelecer um horizonte “educacional e
inspiracional” de introdução aos universos narrativos da série.
Uma vez mais,
evocar o termo “poética” aqui não pode significar ou implicar a suposição de
uma prescrição delimitadora do escopo em que tal horizonte “educativo e
inspiracional” se realiza – por exemplo, no limite de um espectro como o dos
gêneros narrativos (dramas sérios e comédias, por exemplo): ao invés disso, o
termo introduzido a uma matriz explicativa do funcionamento dos pilotos assume
uma base descritiva e não exaustiva para estabelecer um conjunto suficiente de
condições para a compreensão sobre tais relações entre a apresentação dos
universos da ficção seriada, as condicionantes de seu desenvolvimento dramático
e os horizontes de capacidade de recepção requeridas da audiência para não
apenas aceitar tais premissas, mas também subscrevê-las esteticamente,
fruindo-as no horizonte do prazer
anexado a tal compreensão.
“Um
piloto apresenta em forma encapsulada aquilo que a série poderia ser, numa base
contínua, enquanto provê um grau excepcional de exposição narrativa para
orientar espectadores no interior de um mundo ficcional freqüentemente
complexo. Ele deve introduzir um conjunto de personagens através de atalhos, de
modo tal que suas personalidades e relacionamentos sejam momentaneamente
claros, mas de modo suficientemente original para que não sejam sentido como
estereótipos ou clones especialmente familiares de caracteres convencionais.”
(MITTELL, 2015: 56)
Curiosamente (ou
talvez não), Mittel discorre pouco sobre o que caracteriza, conceitualmente
falando, atribuir à “poética” uma matriz que sintetize conceitualmente todo o
conjunto de diferentes procedimentos que ele discrimina, ao tratar de vários
diferentes casos de episódios piloto de diferentes séries de ficção televisiva:
isso talvez signifique aquilo que já identificamos mais acima sobre uma certa
falta de rigor nos usos desse termo, por seu turno associado a um determinado
da autoridade que o mesmo confere àquilo que, no decorrer de sua exposição
sobre pilotos em Complex TV, é apenas
a descrição dos diferentes modos de iniciar formatos seriados – pois, em seu
capítulo sobre “inícios”, ele não chega a delimitar aquilo que, em outras
perspectivas de análise, implicaria uma maior atenção ao passo seguinte da
descrição de casos – a saber, a definição de certas balizas mais gerais de
consideração sobre os procedimentos narrativos e de encenação audiovisual
próprios a tais formatos.
4. Assim sendo, para nos mantermos dentro dessa
limitação mais “positiva” da atenção a peculiaridades de obras isoladas (mas ainda
acrescentando a esse nível indutivo algum tipo de fundamentação conceitual para
a análise dos formatos em questão), consideremos o seguinte caso do episódio-piloto
de The West Wing, que teve sua
estréia na NBC em setembro de 1999 - tentando examinar por seu intermédio aquilo
a qual Mittell se reporta como sendo uma “poética do piloto”: definido por um
horizonte “educacional e inspiracional”, o episódio que introduz um universo
ficcional que será desenvolvido ao longo de uma série contínua mais extensa
deve ser capaz de apresentar de modo suficiente (e evidentemente não exaustivo)
alguns de seus principais elementos e princípios da evolução narrativa que
guiarão o espectador dentro do mundo ficcional assim criado.
The West Wing, S01E01 “Pilot” (Aaron Sorkin/Thomas Schlamme, 1999)
- teaser
Supondo que
estejamos tratando de uma obra seriada constituída nos parâmetros da
narratividade mais “complexa”, em torno da qual o interesse acerca dos formatos
seriados contemporâneos vem se organizando há pelo menos duas décadas, o caso
de The West Wing delineia algumas
dessas características, bem de saída: pensemos, por exemplo, na seqüência de
abertura do episódio (designemo-la, a partir de agora, como um “teaser”, aquele segmento introdutório de
episódios de séries que antecede os créditos iniciais ou, no caso em questão, o
desenvolvimento do arco narrativo de cada episódio); ela nos lança de imediato
em um contexto de múltiplos focos da ação, quando diferentes personagens são
introduzidos em suíte (mas numa lógica não conseqüencial e possivelmente
paralela de suas respectivas relações), todos interpelados por diferentes
dispositivos de chamadas (telefones e pagers),
referidos por uma mensagem que os informa sobre um “acidente de bicicleta com
POTUS”.
De saída, aquilo
que nos é sugerido pela dramaturgia é um horizonte tópico global no qual a
história será enquadrada, ao longo do episódio-piloto e na sucessão de seus
episódios, nos arcos da primeira temporada de The West Wing: a partir do momento em que podemos intuir pelo modo
de exposição dessa primeira seqüência, a relação entre alguns desses agentes já
se estabelece – por exemplo, pelo fato de o nome de “Josh” aparece logo na
primeira cena, na fala de um dos personagens, e mais adiante, quando o próprio
Josh se identifica ao telefone, dizendo “aqui é Josh Lyman”. Para alem disso,
no primeiro dialogo em que ele é referido, trata-se de um dialogo em que um
jornalista pergunta a alguém sobre se o tal Josh será demitido.
Em suma, todos
esses elementos da exposição inicial do teaser
do episódio-piloto nos situam no âmbito das modalidades de apresentação dos
agentes da história e dos conflitos que podem gerar aquele traço característico
no qual seus trabalhos foram reconhecidos: conta especialmente nesse sentido o
fato de que as linhas que demarcam os papéis actanciais que dinamizam a
evolução dramática dos acontecimentos jamais é tão rígida o definitiva, a ponto
de orientar os processos de nossa identificação com este ou aquele personagens
– razão pela qual emerge para nós uma “maneira” de produzir o conflito
dramático menos centrada no desenho de caráter e de motivações particulares dos
agentes e mais na fluidez das relações entre semelhantes (são possivelmente
colegas de um mesmo ambiente de trabalho) com diferentes camadas de interesse –
se o princípio da “intenção e obstáculo” opera aqui, ele é de ordem menos
esquemática do que aqueles dos dramas de ação mais canônicos.
5. Algumas dessas características do estilo de seriados
em Sorkin se tornarão mais evidentes, quando avaliarmos um piloto de outra de
suas séries em parceria com o diretor Thomas Schlamme, situada logo após o
imenso sucesso de The West Wing: é
com Studio 60, então, que tentaremos
observar como é que esses elementos sugeridos inicialmente ganharão sua plena
força, como traços do estilo mesmo de Sorkin, enquanto criador e roteirista; no
contexto de uma consideração sobre o piloto dessa última série da parceria
Sorkin/Schlamme, poderemos constatar não apenas a recorrência dos aspectos que
consolidam o estilo que essa partilha evoca (e do modo como a dramaturgia
fornece determinados nortes para sua consolidação), mas também reconhecer a
evolução desse formato combinado, na medida em que a dramaturgia não mais se
encontra delimitada ou constrita pelo eixo de um gênero dramático especifico
para determinar os efeitos que lhe são próprios.
Studio 60 on the Sunset Strip, S01E01, “Pilot”
(Aaron Sorkin/Thomas Schlamme), 2006 - teaser
De um modo
distinto daquele que caracteriza a função introdutória desse mesmo segmento
episódico em The West Wing, o mesmo
modo que em Sports Night, somos
lançados a um contexto de balbúrdia e de desorientação física no universo das
ações, uma vez mais traduzido pelo movimento contínuo da câmera pelo espaço dos
bastidores de um estúdio de transmissão ou de um teatro, sem que nenhum
personagem assuma o eixo da orientação desse movimento, até que finalmente nos
deparamos com um personagem que se dirige a uma platéia, transmitindo
instruções previas sobre o funcionamento do show (já que ele é transmitido ao
vivo), o que – ao menos parcialmente – nos confere um sentido inicial daquilo
que podemos compreender das ações que se seguirão (ao menos, presumidamente).
Finalmente, no
fim dessa pequena introdução da seqüência, quando o personagem diz a uma
assistente de palco que avise aos dois ao fundo de que é possível ouvi-los
discutindo, somos conduzidos pelo caminho que ela faz na direção dos dois ao
centro dramático mesmo do teaser, um
embate entre o produtor do show, Wes Mandel, e alguém responsável pelos padrões
da transmissão televisiva, em torno de um sketch intitulado “Cristãos Loucos” –
e que resulta no cancelamento desse segmento, para desgosto do produtor, após
uma intensa altercação entre os dois.
No modo de
apresentação dessa seqüência inicial, ficam delineados os “espaços actanciais”
através dos quais podemos identificar as funções pelas quais se define o espaço
do conflito, na dinâmica mesma da “intenção e obstáculo”: nos identificamos de
saída com o personagem do produtor, aguardando com curiosidade aquilo que possa
resultar da obediência prometida a seu superior (que, na verdade, fala em nome
da direção da empresa que comanda o canal de televisão). Tudo isso vai nos
preparando para a irrupção dos eventos que resultarão na famosa seqüência em
que o produtor interrompe a transmissão ao vivo e desenvolve um monólogo sobre
o estado mental e espiritual da televisão, responsabilizando seus padrões de
produção pela decadência da sociedade americana – pedindo aos espectadores que
mudem de canal, imediatamente.
Na encenação
desse rompante, de súbito, nos reencontramos com alguns daqueles procedimentos que
caracterizam o acento mais próprio da dramaturgia de Sorkin, e o modo como a
estrutura evolutiva das ações (pautada pela dialética entre “intenção e
obstáculo”) redunda no particular traço de estilo da obra de Sorkin como
roteirista de televisão e cinema, a saber, sua arte de compor diálogos como
instâncias dramáticas – em suma, o diálogo como ação. São momentos nos quais
podemos comendar a capacidade da dramaturgia em sintetizar uma situação de
enorme conflito, no contexto de uma transmissão televisiva de humor, ainda por
cima gerando um enorme interesse por aquilo que prosseguirá de uma tal promessa
narrativa do teaser. É através do
diálogo que o próprio Sorkin expressa o modo como seu modo de conceber dramas
desenha efetivamente o perfil actancial de seus personagens e os regimes de sua
inserção nas dinâmicas dramáticas da “intenção e obstáculo”, como ilustrado
nessa brilhante e detalhada análise da função do dialogo em The Social Network – não por acaso,
roteirizada por Sorkin:
Lessons from the Screenplay
“The Social Network: Sorkin,
structure and collaboration” (2017) – até 7:03
Concentrada nessa
seqüência inicial de Studio 60,
manifesta-se ainda o aspecto do estilo dramatúrgico de Sorkin, na medida de sua
articulação com aspectos de sua evolução no episódio-piloto que reforçam o peso
atribuído à instancia do roteirista, inclusive com significativos ganhos de uma
“complexidade narrativa” que mereça esse titulo: sinal particular desse último
ponto é que o teaser sequer é
introduzido a partir de uma exposição em que se encontrem os reais
protagonistas do universo narrativo da série. Ao apresentar o universo na série
desse modo, Sorkin introduz um considerável grau de complexidade no modo de
fazer o piloto corresponder a uma “poética” determinada da educação da recepção,
já que nosso interesse pela série não será guiado pela evolução dos agentes que
presenciamos em cena no teaser.
Com esses pontos
em vista, não esgotamos aqui necessariamente as questões relativas às marcas
estilísticas do trabalho de Sorkin, como ilustração de como avaliar o
funcionamento das obras seriadas de ficção televisiva, a partir da atenção a
determinadas “marcas de estilo” dessas obras: até esse ponto, nos concentramos
apenas no âmbito de sua escrita dramatúrgica, já que associamos à sua presença
(mesmo na dependência de seu horizonte de atualização pela performance dos
atores) como sendo a matriz do tipo de endereçamento que ela faz ao horizonte
das competências de recepção que a acionarão como partes reconhecíveis de uma
assinatura – em um sentido relativamente mais central.
A partir daqui e
seguindo adiante, necessitaremos revisitar alguns dos casos já examinados da obra
de Sorkin (e mesmo algumas das mesmas questões visitadas através deles, como a
dos modos de construção dos agentes e das situações narrativas preferenciais de
sua obra), para avaliar o modo como tais marcadores estilísticos são
precisamente realçados em contextos de “autoria partilhada” com aqueles que
procuram consagrar a dramaturgia em padrões reconhecíveis de encenação
audiovisual – e que façam justiça a muitos desses pontos associados ao trabalho
da escritura de Sorkin. É a dimensão partilhada das decisões criativas que
conferem status de autoria a roteiristas e diretores - na relação entre
dramaturgia e encenação audiovisual - que constituirá o tópico da próxima (e
possivelmente última) unidade de
nosso percurso, a seguir.
Referências Bibliográficas:
ECO, Umberto. “A inovação no seriado”. In: Sobre os Espelhos e Outros Ensaios (trad.
). São Paulo: Nova Fronteira (1989): pp. 121, 139;
MITTEL, Jason.
“Complexidade narrativa na televisão americana contemporânea” (trad. Andrea
Limberto). In: Matrizes. 5/2 (2012):
pp. 29,52;
Bibliografia Suplementar:
MITTELL, Jason.
“Beginnings”. In: Complex TV: the poetics
of contemporary television storytelling. New York: NYU Press (2015): pp.
55,85;
PICADO, Benjamim e SOUZA, Maria Carmem
Jacob de. “Dimensões da autoria e do estilo na ficção seriada televisiva”. In:
Matrizes, 12/2 (2018): pp. 53,77
Próximas Leituras:
PICADO, Benjamim.
“Encenação e Aspecto: inflexões estilísticas da mise-en-scène na obra seriada de Aaron Sorkin”. In: Aniki, 6/1 (2009): pp. 81,105;
PUCCI, Renato. “Inovações
estilísticas na telenovela: a situação de Avenida
Brasil”. In: FAMECOS , 21/2 (2014): pp. 675,697;
ROCHA, Simone Maria. “Os visual studies e uma proposta de análise
das tele-visualidades”. In: Significação.
43/46 (2016): pp. 179,200.
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