Notas da 1a sessão do curso: Introdução às Narrativas Audiovisuais (Eco e Zanetti)
Olá queridos,
Em tempo, as notas da primeira aula da disciplina (25/03).
Priscila e Benjamim.
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Introdução às Narrativas Audiovisuais
1. Sobre estruturas discursivas:
Dentro do que o autor Umberto Eco (2011) entende por estruturas discursivas, o conceito de explicitação semântica surge como o primeiro destaque necessário para nos aproximarmos de qualquer texto (seja este escrito ou audiovisual). Eco (2011) nos informa que
Quando o leitor se depara com um lexema, não sabe quais propriedades ou semas do correspondente semema devem ser atualizadas de modo a pôr em funcionamento os processos de amálgama. (…) Em outras palavras: daquilo que permanece semanticamente incluso ou implícito, o leitor só explicita o que lhe serve. (ECO, 2011, p.69)
Em uma primeira leitura, pode parecer impossível decifrar o que o autor nos informou, porém vamos observar alguns conceitos que nos ajudarão a entender melhor o que o autor entende por explicitação semântica. Um LEXEMA é uma unidade de base do léxico, que pode ser morfema, palavra ou locução. Já um MORFEMA é a menor unidade linguística que possui significado, abarcando raízes e afixos, formas livres (p.ex.: mar ) e formas presas (p.ex.: sapat -, - o -, - s ) e vocábulos gramaticais (preposições, conjunções). E um SEMEMA é unidade semântica que tem por correspondente formal o lexema. Enquanto que uma AMÁLGAMA refere-se a fusão de elementos, neste caso, de palavras.
Dito isto, voltamos a ler o que Eco (2011) fala sobre o processo de leitura. Entendo cada palavra desconhecida, apreendemos que quando uma pessoa lê uma palavra num texto, ou o texto em si, só aciona os sentidos necessários para completar sua leitura, e despreza todos os outros sentidos que não serão úteis para aquele contexto. Essa operação se dá a partir do conhecimento enciclopédico que cada um de nós temos em relação a cada palavra ou unidade semântica. No exemplo desta aula, se nos falta conhecimento sobre o significado das palavras é impossível de apreender o sentido que o autor quis dar ao texto. Sendo assim, quando nos deparamos com uma palavra em um texto, como por exemplo, “mulher”, podemos fazer várias inferências sobre o que será necessário pensar sobre ela, como adulto; pessoa do sexo feminino; estatura; porte do corpo; profissão… porém, só faremos a explicitação daqueles sentidos que nos serão úteis.
Umberto Eco nos informa que, "(...) um falante normal tem a possibilidade de inferir, da expressão isolada, o seu possível contexto linguístico e suas possíveis circunstâncias de enunciação. “ (ECO, 2011, p.3) mas que "(...) nenhum termo assume um significado satisfatório fora do contexto. “ (ECO, 2011, p.7). Essa possibilidade de inferir sobre os significados só se dá porque cada um de nós carrega consigo um conhecimento enciclopédico sobre o mundo e seus significados. Em outras palavras, somos capazes de inferir significados, pois cada um de nós é um acúmulo de situações já vividas e de leituras já feitas. Ser capaz de inferir sobre o que uma palavra quer dizer em dado contexto de leitura, nos permite acompanhar o sentido daquele texto e elaborar hipóteses sobre o tema de determinada narrativa.
Sobre o tema ou topic de uma narrativa Eco nos diz que,
(...) para decidir quais propriedades devem ser magnificadas e quais narcotizadas, nãobasta comparar o que nos é proporcionado por uma inspeção na enciclopédia. As estruturas discursivas são atualizadas à luz de uma hipótese acerca do topic ou dos topics textuais. (ECO, 2011, p.70)
Isto é, não tomamos as decisões de explicitar significados de maneira completamente arbitrária, levamos em consideração as hipóteses que nós mesmos criamos para conseguir acionar os sentidos, essas hipóteses que criamos são o nosso guia de leitura.
A enciclopédia semântica é potencialmente infinita (ou finita, mas ilimitada) (...) um texto poderia gerar, por meio de sucessivas interpretações e magnificações semânticas, qualquer outro texto (…) devemos determinar como um texto, em si, potencialmente infinito, pode gerar apenas as interpretações que sua estratégia previu.(ECO, 2011, p.70)
Sendo assim, o topic é então, a estratégia de interpretação construída pelo texto, que garante que determinado que ele seja interpretado de um jeito e não de outro. Não basta olhar para um “mulher" e saber que esta palavra se refere a um ser feminino, é preciso encaixar essa "mulher" numa suposição narrativa. E somente a partir daí, poderemos ler os lexemas de acordo com o que foi previsto.
Outro conceito importante dentro do que o autor propõe para a análise das estruturas discursivas é o conceito de Isotopia (Greimas, 1970).
Ainda citando Eco (2011), "Greimas (1970: 88) define isotopia como 'um conjunto de categorias semânticas redundantes que possibilitam a leitura uniforme de uma história.” (apud ECO, 2011, p.74-75). Nesse sentido, as isotopias são os conjuntos de redundâncias que nos permitem afirmar o tempo todo no texto que o sentido que foi topicalizado (ou seja, nossa hipótese sobre o tópico) está correto. “Podemos chamar de isotopia o resultado semântico desta interpretação coerente e reconhecer a isotopia atualizada (…)” (ECO, 2011, p.76). Nas narrativas audiovisuais, as isotopias se dão de várias maneiras, seja através decaracterizações, objetos e outros elementos.
As isotopias podem ser apresentadas dentro das estruturas discursivas e dentro das estruturas narrativas, "É claro que na esteira das duas isotopias discursivas se pode resumir duas histórias diferentes (...) duas isotopias discursivas geram dois possíveis resumos narrativos.” (ECO, 2011, p.80). As isotopias quando discursivas, nos ajudam a chegar no sentido do texto ou da frase, a partir do topic que elaboramos. Já as isotopias narrativas, nos levam a fábula ou seja, sobre o que a história se refere ou pode se referir.
No tópico a seguir vamos perseguir alguns conceitos que são referentes às estruturas narrativas e nos farão entender melhor as isotopias narrativas.
2. Sobre estruturas narrativas:
Entramos agora no percurso para entender o que Eco (2011) chama de “Do enredo à fábula”. Que, segundo o autor, só é possível ser seguido uma vez que já dominamos as estruturas discursivas. "Uma vez atualizado o nível do discurso, o leitor está em condições de sintetizar trechos inteiros de discurso mediante uma série de macroproposições.” (ECO, 2011, p.85). Essas macroproposições são feitas sobre os rumos que a história irá seguir. Para avançarmos nesse sentido é preciso que a gente diferencie os dois conceitos centrais desse percurso: fábula e enredo.
Fábula é o esquema fundamental da narração, a lógica das ações e a sintaxe das personagens, o curso de eventos ordenados temporalmente (...) o enredo, pelo contrário, é a história como de fato é contada, conforme aparece na superfície, com as suas deslocações temporais (…)". (ECO, 2011, p.85)
Ou seja, a fábula é a possibilidade narrativa de uma estrutura discursiva. É o esquema que reúne tudo que está sendo contado pelo enredo. As isotopias construídas no texto servem para levar o leitor a acessar a fábula. Porém, a fábula em si, também é uma isotopia, que guia o leitor ao topic da narrativa.
“Num texto narrativo, o enredo identifica-se com as estruturas discursivas”. (ECO, 2011, p.86) Já as macroproposições, ou seja, as inferências oriundas de uma série de pequenas inferências, estão relacionadas à fábula.
Porém, existem condições elementares para que uma sequência discursiva seja considerada relevante do ponto de vista narrativo, ou seja, possa ser definida como fábula, é o que nos informa Eco (2011) a partir de dois autores:
[van Dijk (1974)] uma narração é uma descrição de ações que requer para cada açãodescrita um agente, uma intenção do agente, um estado ou mundo possível, uma mudança, com sua causa e o propósito que a determina
[Aristóteles] onde é suficiente identificar um agente, um estado inicial, uma série demudanças orientadas no tempo e produzidas por causas até um resultado final. (ECO, 2011, p.90-91)
Então, podemos considerar que o discurso (as estruturas discursivas) se torna narrativa (ou uma porção de fábula) desde que seja possível identificar que existe um agente, que ele estava de um jeito e coisas acontecem ao longo de um período que o tiram do estado inicial por alguma razão e o levam a um estágio final.
Em meio de tudo isso, como esses conceitos nos ajudam a entender e analisar obras audiovisuais? Esse é o ponto de nosso próximo tópico.
3. Sobre narrativa audiovisuais:
Mesmos conceitos, nomes diferentes. Vamos retomar o que já vimos até aqui e chamar novamente Umberto Eco para a conversa. Quando o autor diz "Quando o leitor se depara com um lexema (...)" (ECO, 2011, p.69) e quisermos pensar num produto audiovisual e não num texto escrito, teremos que nos atentar que, quando formos pensar em narrativas audiovisuais, sejam elas filmes ou séries, os mesmos conceitos podem ser empregados, desde levando em consideração a peculiaridade do objeto analisado, logo, considerar espectador no lugar de leitor e o lexema pode ser entendido como os elementos que vemos em cena. Por exemplo, uma cena contendo uma estrada, uma moto, um personagem.
Da mesma maneira que fazemos inferências sobre o que é lido, com os produtos audiovisuais podemos usar nossa enciclopédia para acionar possíveis leituras quando vemos algo acontecendo na tela. Ao conhecimento enciclopédico, quando referente ao audiovisual, também acrescentamos conhecimentos que são inerentes a esse meio e que podem adicionar ainda mais sentido ao que está sendo visto, nesse sentido elementos como planos, enquadramentos, uso do som, nos ajudam a inferir ainda mais sobre o que é visto.
Quando pensamos no topic, semelhante ao que fazemos com um texto escrito, também conseguimos dividir o produto audiovisual em unidades de modo que sejamos capazes de formular sobre o que ela se trata. No caso do audiovisual, podemos falar em: cenas e sequências.
Pensando especificamente nas séries, alguns autores como Newman (2006) sugerem outras unidades de divisão narrativas, nas quais também podemos propor associações aos topics, como: beats, episódios e arcos.
Nos produtos audiovisuais, as isotopias são extremamente recorrentes e podem ocorrer de várias maneiras, pois o processo de "mostração" inerente ao audiovisual facilita a recorrência de elementos de significação. Nesse caso, é possível pensar que redundâncias na inserção de utensílios de cozinha em uma cena com duas pessoas conversando, pode nos ajudar a entender melhor o topic do diálogo (discursivo) e até mesmo da série (narrativo).
No caso do enredo, os produtos audiovisuais, podem construir enredos que estendam uma história em uma, duas ou cem horas. A especificidade do meio no qual o produto vai ser inserido (cinema ou TV) por exemplo, permite que o enredo da narração seja construído utilizando uma série de recursos temporais, por exemplo (pausas, elipses, flash backs) que alargam a narrativa ou a comprimem de acordo com a necessidade. No caso das séries, por exemplo, um mesmo enredo pode ser desenvolvido por vários episódios e não chegar a ser o enredo completo da história.
Dificilmente a fábula muda muito de acordo com o meio onde está sendo contada. Por ser uma característica inerente a mesma (Eco, 2011), a fábula pode ser contraída ou expandida de acordo com o meio onde é desenvolvida. Nesse sentido, as obras audiovisuais, no geral, permitem uma expansão maior da fábula, quanto maior for a duração do produto. Séries podem expandir uma fábula por temporadas e mais temporadas.
Sendo assim, seguimos para entender um pouco mais sobre o histórico dos produtos televisivos, que serão nosso foco daqui para frente, no tópico sobre Narrativas precursoras às séries, ou "porque é possível aplicar os mesmos conceitos”.
4. Sobre Narrativas precursoras às séries (entendendo o contexto):
Daqui em diante vamos fazer uma pequena revisão de como chegamos até os produtos que tanto consumimos - as séries - para entender porque é possível aplicar os mesmos conceitos que acabamos aprender da análise narrativa. Como nos informa Daniella Zanetti (2009),
Muitas das características que hoje encontramos em narrativas seriadas (ou não) têm sua raiz no chamado romance popular, que nasce e se firma na França, nos anos 1830. Trata-se do aparecimento de uma narrativa direcionada para a burguesia, influenciada pelo fato de que também as mulheres começam a se tornar consumidoras desse tipo de «mercadoria romanesca». É o nascimento de um novo público, para o qual a narrativa popular fala, mas também sobre a qual fala. As plebes e as classes subalternas começam a tornar-se o objeto das narrativas. (ZANETTI, 2009, p.187)
A autora está falando neste trecho sobre a circulação de “folhetins” que eram esses produtos narrativos seriados que serviam a uma camada específica da população. Sobre a circulação, também precisamos levar em consideração que antes da própria invenção da televisão, o Romance Popular já era visto como entretenimento de massa,
O romance popular não inventa situações narrativas originais, mas combina um repertório de situações «tópicas» já reconhecidas, aceitas, amadas por seu público (…) Os leitores, por seu lado, pedem ao romance popular (que é um instrumento de divertimento e evasão) não tanto que lhes proponha novas experiências formais ou subversões dramáticas e problemáticas dos sistemas de valores vigentes, mas exatamente o contrário: que reforce os sistemas de expectativa integrados na cultura vigente e com elas conformes. (Eco, 1991, p.81)
Podemos pensar dessa mesma maneira em relação as séries televisivas, já que
Embora cada episódio desse tipo de produto possa ser assistido separadamente, as histórias funcionam a partir de um encadeamento de ações ou da repetição de peripécias que ocorrem a um mesmo grupo de personagens principais. A “saga” que, de acordo com Eco, pode ser entendida como uma variação do “seriado”, apresenta uma sucessão de eventos (aparentemente inéditos) interligados ao processo «histórico» de um ou mais personagens, fortalecendo a ideia de passagem do tempo.” (ZANETTI, 2009, p.186)
Sendo assim, entender que a matriz narrativa é o elemento mais importante desses produtos, nos permite compreender porque é adequado que utilizemos os conceitos da narratologia para analisar séries televisivas. Já que,
Na série, o leitor acredita que desfruta da novidade da história enquanto, de fato, distrai-se seguindo um esquema narrativo constante e fica satisfeito ao encontrar um personagem conhecido, com seus tiques, suas frases feitas, suas técnicas para solucionar problemas. (ECO, 1989, p.123)
Mas isso não quer dizer que não existam autores que se debruçam especificamente sobre as questões exclusivas (será?) da ficção seriada televisiva, existem sim, mas isso não muda nossa forma de análise. Com esses autores, nós encerramos essa discussão introdutória.
Referências Bibliográficas:
ECO, Umberto. "Estruturas discursivas". In: Lector in Fabula: a cooperação interpretativa em textos narrativos. São Paulo: Perspectiva (2011). p 69-82.
ECO, Umberto. "Estruturas narrativas". In: Lector in Fabula: a cooperação interpretativa em textos narrativos. São Paulo: Perspectiva (2011). p 85-90.
ECO, Umberto. “A inovação no seriado”. In: Sobre os Espelhos e Outros Ensaios (trad. ). São Paulo: Nova Fronteira (1989): p. 121-139;
ECO , Umberto. O super-homem de massa. São Paulo: Perspectiva (1991).
NEWMAN, Michael. From beats to arcs. Toward a poetics of Television Narrative. 2006)
ZANETTI, Daniela. Repetição, serialização, narrativa popular e melodrama. In. Matrizes, Ano 2 – nº 2 primeiro semestre de 2009.
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